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A Saudade não mata, ensina a morrer

Quinta-feira, 22.06.17

Quase tudo nos mata, mas nem tudo nos ensina a morrer. A saudade não mata, ensina a morrer lentamente, gradualmente, silenciosamente, e isoladamente. Devemos morrer para nos sentirmos realmente vivos, mas não devemos saber morrer. E eu aprendi a morrer todos os dias, e haverá pior forma de morrer do que sufocado pela falta de alguém, que não é nosso, nos faz?

Hoje, sei que é tarde para conversas: sei que saber disto já é algo, mas não me chega. Hoje é tarde para pedir desculpas, tão tarde, como a hora marcada pelo relógio, e mais logo já é manhã- cedo demais.

Hoje é tão tarde, e amanhã será tão cedo, era o ontem – mas ele não volta.

É primavera, mas os pássaros não cantam e as flores não brotam. Não é inverno mas faz frio dentro de mim, e os meus olhos têm chovido tanto.

Ontem era tudo, amanhã sou vazio, hoje sou saudade. Ontem eras o universo, amanhã serás apenas mais um elemento, hoje és a falta que me consome. E eu pergunto-me quem somos nós.

Saudade, minha velha amiga: és a melodia mais bonita com o ritmo mais diabólico – raios, como eu te odeio por não me deixares esquecer de alguém que nunca se lembra de mim.

Quando a saudade chega, de mansinho, os olhares falam mais alto que as palavras que te tento dizer: digo-te tudo e mais alguma coisa, quando estou calada, e tu nunca ouves o meu silêncio.

Olhas-me e digo-te “tenho saudades tuas” estamos frente a frente e nem uma palavra: eu disse-te tantas vezes que tenho saudades tuas e tu nem ouviste – És a minha melodia bonita com o ritmo diabólico, e nem mesmo por isso te consigo odiar – e eu odeio-me por nem sequer te conseguir odiar.

A morte nem sempre é prova de amor: eu gosto de ti porque morreria por ti, e eu amo-te porque viveria por ti. E a vida é a maior prova de amor que te posso dar: todos morrem - é banal – qualquer um morreria por ti, em ti, para ti, eu viveria por ti, em ti e para ti – e tu decidiste matar-me de saudades de viver por ti. Quem me dera estar viva para to dizer.

No meu último dia, vi-te a consumir mais um cigarro – um dos teus tanto vícios – e, por momentos, imaginei-me como sendo ele: nasce nas tuas mãos, quando o juntas, morre nos teus lábios, quando o consomes, e dá-te a volta à cabeça, quando te falta – como eu desejo ser um dos teus vícios – tu não me fazes nascer, muito menos em ti, matas-me mas não é de amor e não sou eu que te preenche a cabeça de um vazio indeterminável de um querer constante por não me teres – dou-te a volta na tentativa de voltarmos, mas um dia esperei por ti e tu não vieste, não voltámos, e eu morri. A saudade ensinou-me a matar: foste tu quem me deu a bala, a vida deu-me a pistola, e a saudade deu-me a pontaria.

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publicado por Menina Flor às 23:13





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