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Contadores de estrelas

Sexta-feira, 30.06.17

Estou mal. Muito mal. Demasiadamente. Sinto-me num buraco tão fundo que quase consigo afogar-me no meu próprio vazio.

Sou-te indiferente e invisível, e de que sirvo se não te sirvo para nada? De que sirvo se não sirvo nem sequer para te dar um pouco daquilo que te falta? De que sirvo eu se não te sirvo a ti?

Amar é tarefa complicada, e tu descomplicas o complicado, e fácil apaixonar-me por ti de uma forma simples, por isso mais fácil ainda, é gostar de gostar de ti - e como deixar e gostar de ti, se só isso me mantem viva, mesmo quando tu me matas lentamente, sem saber (talvez).

Abandonas o quarto, que outrora foi nosso, e dás-mo de mão beijada como se fosse uma batalha que ganhei antes de lutar, e tu sabes, sempre gostei de vencer mas neste caso, prefira ter perdido o orgulho e teria ganho por amor.

Lágrimas afugentam-me a noite, e trazem a insônia, e eu só pedia que tu estivesses aqui.

Não sei quanto tempo dura a saudade, porque desde que foste perdi-lhe a conta, e eu queria apenas contar contigo, queria ser uma contadora de estrelas, abraçada a ti. Então, por favor não demores, apressa-te, esquece as nossas zangas e vem, vem contar estrelas comigo.

Sou prisioneira de um choro profundo, e nem por isso me consigo privar de me sentir livre. A liberdade é para mim o amor, e como o meu amor por ti ainda não morreu, eu sou livre. Mas sou também um pássaro dentro de uma pequena gaiola que não me deixa ser livre de ti. Sou livre, sem o ser. E haverá maior indecisão do que se ser aquilo que não se é, ou a liberdade condicionada por um amor que não me pertence mesmo que eu lhe pertença?

Foste-te, e a minha última lembrança tua é a saudade.

A rua é tão longa e mesmo assim quando olha pela janela sinto que está é demasiadamente pequena… (talvez seja o meu futuro: pequeno e amargo).

Lá fora mil e uma coisas, e cá dentro não há mais nada. Lá fora tudo, cá dentro nada. E desculpa se assim foi, porque moraste em mim e não tinhas abrigo. Sou vazia, e tu transbordaste-me de amor, hoje transbordo de saudade.

Hoje conto as estrelas sozinha. Conto-as como quem conta uma história (e eu, eu queria tanto contar a nossa história às estrelas, por favor volta.)

Voltas-te, e eu? Eu estou estática a ver-te chegar. Não sei o que sinto: angústia ou amor, afinal tu abandonaste-me e eu esperei-te por tanto tempo que mesmo o hoje é tarde demais. Mas nunca é tarde demais para se amar. Não consigo correr para ti, apenas um acenar e um sorriso, e tu vens. Estás perto, tão perto que não existe distância alguma nos nossos corpos.

Vais-te embora, porque já é tarde. (Sempre o foi, tu é que não soubeste). Então eu vejo-te ir da janela.

E de repente um ruído preenche a rua.

Ao longe, um ruído enorme. Diz-me que não és tu. Diz-me por favor. Conta-me o que te aconteceu, mas sê um sobrevivente.

Perdi-te, e não me ganhei, nem a mim nem a ninguém. Perdi-te, simplesmente e foi a minha maior perda.

Estrelas. Elas brilham. E eu, eu desejo tanto voltar a brilhar e despertar de ti um brilho especial também, porque apesar de tudo tu não paraste de brilhar, e continuas a minha maior estrela. E como eu adoro estrelas, e como eu te adoro a ti.

O ruído impede-me de chegar perto de ti e, tal como as estrelas, tu estás-me distante e por mais perto que chegue irá sempre haver uma grande distância: não física, mas química - toco-te mas os teus átomos já não reconhecem os meus.

Diz-me só que vivo mais um pesadelo. Diz-me que não és tu que estás preso a essa cama, sem forças e sem me reconheceres. Diz-me que vais sobreviver, e vais esperar por mim para que cheguemos a tempo de ver as estrelas.

As gotas escorrem-te no sangue, e são elas que ainda te mantêm vivo; Uma: gritas, depois ficas sem voz. Mais uma gota; Duas: estás irrequieto, agora és imóvel. Mais uma gota;Três: vives, depois morres. Nem mais uma gota.

O telemóvel toca. "Nós tentamos de tudo, mas infelizmente não foi o suficiente. Os meus sentimentos". E quem, quem raio quer saber se os sentimentos são realmente sentidos? E quem, quem raio quer saber se foi o suficiente?

Talvez as tentativas tenham sido poucas, ou talvez se tenha respeitado a tua última vontade.

Mas eu tinha-te pedido para ver as estrelas comigo esta noite, e tu já não podes aceitar. Para onde vais? Espera por mim para ver as estrelas.

Morte causado por ausência de amor.

Desculpa-me. Foste o meu maior pecado, e nem mesmo assim consegui errar direito.

Quero que chegue a minha vez, porque na verdade já estou morta à mais tempo que tu... o enterro é apenas o físico, porque a minha química desapareceu contigo.

"Eu sinto muito, por ter sentido tanto e não ter dito nada" - não que um ramo de flores desculpe mas é exatamente assim que os vivos retribuem aos mortos. E eu, eu não tenho caixão nem cova mas já estou morta à muito tempo, por favor não me dês flores.

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publicado por Menina Flor às 12:12





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