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Hoje escrevo-te para dizer que nunca fomos inteiramente um do outro

Domingo, 10.09.17

Escrevo-te até que as palavras acabem. E porque até a infinidade é finita, desde que existe a definição de início e fim, as palavras também o são - a infinidade contada desde o início ao fim.

Escrevo-te até que o silêncio se faça ouvir. Porque apesar das palavras serem firmes não trazem com elas segurança. E o silêncio também são palavras. Palavras estas que se ouvem no barulho do vazio, onde o nada é tudo.

Escrevo-te porque gosto de metáforas e personificações, porque sei que o lugar de uma vírgula muda a história, percebo, também assim, que uma pessoa muda a nossa história.

E escrevo-te não só porque me mudaste mas também porque me mudei por ti.

Escrevo-te porque sei que não tens horas para chegar, e eu chego sempre cedo demais. Escrevo-te porque não tens medida, e eu meço demais.

E por isso te escrevo, porque sei que é a minha escrita que me deixa pertencer-te, nem que por apenas, numa pequena eternidade que de tão ínfima não passa de meros minutos.

Escrevo-te porque são minutos, as horas quando estás, e quando vais são horas, os minutos. Escrevo-te porque o relógio não para, e tu já nem vens.

Descrevo-me na roupa preta e tinta negra, e pela escrita sou poeta. Sou poeta de amor e não sei escrever sobre ele. Sou poeta e tenho fome de amor, e afinal que raio de poeta eu sou? 

A branco tu. A preto eu.  E cinza, nós. A claridade na escuridão. Poesia do amor e tu regressas-me.

Fechas a porta, como se nunca tivesses saído. Frio. Está frio. E por dentro estou gelada, e de tão gelada que estou o frio parece-me quente. O frio aquece-me quando tu não estás. E tanta brasa para a fogueira, sabia lá eu que tinhas outro lume.

Não te conheço mais, e tu não me conheces mais - e o silêncio deixa-nos perceber que nos desconhecemos por completo, mas não, nós não nos perdemos: não te perdi, porque na verdade nunca foste meu; não me perdeste porque apesar de ser tua por inteiro, nunca me quiseste nem pela metade. 

E, quem parte ensina a partir: e esse é o problema, pois aqui não há merecedores, há sorte  (e deixa que te diga, ela nunca esteve do meu lado).

Escrevo-te, então, para te dizer que é impossível perdermos alguém que não é nosso, por isso, nós não nos perdermos porque, de verdade, nunca fomos inteiramente um do outro.

 

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publicado por Menina Flor às 23:40





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