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Mas está tudo bem

Domingo, 30.04.17

Vou contar-te um segredo, mas promete-me que o guardas, tão bem ou melhor ainda, como eu o guardo também.

Tenho milhares de segredos e escondo-me em cada um deles. Tenho um segredo que guarda todos os outros mil segredos que eu tanto guardo, e por favor guarda-o tu também.

Tenho um segredo: minto-te, todos os dias, sempre que digo “está tudo bem”. Tenho um segredo: não está tudo bem- tenho um segredo, e este é o meu segredo.

E queres saber mais? Minto-te, todos os dias, quando me perguntas o que escondo e te digo que não tenho segredos. Este é o meu segredo: manter em segredo, os meus segredos e fingir que não os tenho.

Mas está tudo bem: eu consigo sorrir e até disfarçar. Talvez não esteja, mas lembra-te este é o nosso segredo, por isso vou contar-te toda a verdade (ou pelo menos a minha verdade).

 Este é o meu segredo, e dele eu só rezo para que tu não faças parte (e se fizeres tens duas opções: ou te perdi, ou me perdeste).

Como tantas outras histórias, a minha também se inicia por um estado de alegria sufocante, e depois a realidade… e é o fim… não o meu, talvez de um pedaço de mim.

 (Não te preocupes se estou bem, nem o que me fez mal... não te preocupes simplesmente pelo facto de eu não estar bem. Preocupa-te a guardar o meu segredo, apenas. Porque está tudo bem).

O meu segredo, vou contar-to, mas por favor quando o souberes continua a sorrir para mim no corredor, e acredita no meu “está tudo bem”: eu prometo continuar a mentir-te tão bem como tenho feito até agora. Este é o meu segredo:

 Começou por ser uma fase. Hoje é uma fase com diferentes fases. Era drama. Hoje não me resta apenas um. Era choro. Hoje é silêncio. É solidão, porque sei que ninguém quer saber realmente o que se passa. Não lhes interessa, e na verdade não lhes interessa mesmo. Eu minto bem, por favor não arranques de mim a máscara de felicidade a que já habituei todos os que não se importam.

 Tudo acaba, é verdade, mas nem todos os fins são maus (uns servem para chorar, e outros apenas para livrar daquilo que nos mata- não a doença, mas sim a cura)... Se a alma já tiver morrido, qual é a perda do corpo? Nenhuma… Foi a morte do corpo, a alma já tinha morrido há muito tempo. Livrei-me. O que me matou não foi a doença (essa apenas me consumia lentamente até eu enfraquecer e ela tomar conta do pouco que eu ainda era), foi a cura (que ao atuar levou de mim o que eu não tinha, e tudo o que tinha…talvez aquilo que me mantinha viva enquanto a doença se apoderava do meu corpo).

 Uns partiram-me o coração, outros feriram-me o corpo, e cada um deles, por sua vez, destruíram-me a alma. Morri. Sem balas, facas, ou cordas. Morri, em cada um deles, por cada um deles, com cada um deles, e para cada um deles. Morri, e trago este segredo comigo. E eu, que nunca gostei de segredos, tornei-me num.

O tempo passa mas nem sempre cura as feridas… No meu caso sinto apenas uma anestesia forte (mas não o suficiente para que me consiga fazer esquecer por completo a primeira morte do meu corpo, do meu coração e da minha alma).

Por vezes, sinto-te tão perto de mim, e tremo mais um bocado, choro, e tento escapar-te. (Imagino-me a imaginar-te como uma boa memória. Mas desculpa, se estás aqui, é porque não o és.) Permito-me pensar mais uma vez, na tentativa de perceber o que realmente aconteceu. Mais um detalhe. Quase consigo perceber o que aconteceu. (Fecho os olhos, e vejo-te. O teu rosto é tão bonito, pena que a tua personalidade não o é. O teu perfume é tão doce, pena que o teu toque não o é. O teu sorriso é tão viciante, pena que tu também o és, e nem por um momento consigo distinguir a realidade do meu imaginário). Está tudo a passar como uma fita. (Oiço a tua voz. Sorris-me. Lês-me, e sabes o quanto eu adoro poesia. Tocas-me, e de repente- a realidade). Abro os olhos, e não me permito saber o que acontece a seguir. Minto-me mais uma vez, e esqueço novamente que existes.

Hoje estás onde não estou, e vais onde não vou. Hoje encontro-te onde não estás, e vejo-te onde não vais. Longe, é apenas um conceito de medida que usas para dizer que desististe. Perto, é a distância onde nenhum dos meus átomos se nega a estar quando se encontraram com os teus- mas tu nega-lo.

Tu és a imagem desfocada que trago no meu peito. Mentes-me e eu descubro a verdade um dia mais tarde, quando no meio dos meus pensamentos tu surges personificado como a minha primeira morte. Aprendi que longe é a medida certa em que os meus átomos estão mais seguros, e perto estou agora de mim, quando me sento e já não penso em ti. Perdeste-me.

A segunda morte é a base de uma perda onde a minha alma, o meu coração e o meu corpo não prestaram atenção aos sinais e detalhes.

Choro a minha perda e a tua ausência. E não sinto falta do anel, sinto a tua falta. Sinto falta de não ter mais falta de ti. Encontrei-me em ti, e depois perdi-te, e perdi-me também.

Saudades são o que não me falta, mas não posso falar. Sinto-me presa, e se falar vou perder-te ainda mais.

Como pode alguém encarar o meu papel, e dizer-me que o melhor para mim é ter alguém melhor do que tu? Pois bem, é isso. É isso que acontece, e tu não o sabes. Não sabes que não foi uma escolha minha. Não sabes que da última vez que te vi se te falasse nunca mais te poderia ver. Desculpa-me. Sou alguém que não te merece, mas a verdade é que és a medida certa para mim: nem mais, nem menos. O suficiente. E o que tu és basta-me.

(-Mereces alguém que te ame. Alguém que saía contigo. Alguém que seja para ti o que tu foste para ele. Alguém te agarre e te faça dançar. Alguém que seja melhor do que ele.

-Não mereço. Mereço-o exatamente a ele. E talvez seja ele que não me mereça a mim. Não quero alguém que dance comigo, quero que ele dance comigo. Sentes a diferença? Não quero alguém. Quero-o a ele.)

Perdi-te.

Mais uma noite sem dormir. As noites sem ti parecem eternas.

Mais o decorrer de um dia. Os dias sem ti são particularmente desinteressantes.

Espero-te, como quem sabe o que espera (mas na verdade não sei).

Ele perdeu-me, e eu perdi-te. Consequências ou acasos? Destino ou azar? Rezo para que ele não volte, e para que tu voltes e me tragas contigo.

Este é o meu segredo. E agora passa a ser teu. 

Este é o meu segredo: perdi-me em alguém que me perdeu, encontrei-me em alguém que perdi.

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publicado por Menina Flor às 00:19





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