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Morreste-me

Quarta-feira, 19.04.17

Sentada na mesma janela, de onde te vi partir em tempos, apresento-me das diferentes formas que a minha essência me permite: corpo e alma.

A essência é a partícula constituinte de qualquer presença.

O corpo é o físico banal atingível por todos, é o pecado mais comum da fraqueza humana, resumida ao prazer simples de contentamento e satisfação da carne. O corpo não passa de um mero desejo, de matar a fome e a sede, momentâneo. E quando o corpo morre todos choram, uns de tristeza, outros pela falta, mas nenhum se lembra da substância mais íntima que também constituí a essência: a alma.

A alma é o despir do corpo, é a forma mais nua de nos apresentarmos sem disfarces. A alma é a forma mais pura de vida, algo que nasce, mas que não morre (por vezes, morre inúmeras vezes mas em nenhuma delas existe a morte infinita): a alma é também pecado, também é desejo mas só para aqueles que sabem o fim do corpo e a infinidade da alma.

O corpo traz com ele rugas, cicatrizes, feridas enquanto a alma se apresenta por aquilo que ela não tem, pelo caos, pelo vazio.

A diferença entre o corpo e a alma é que o corpo nasce para a morte, e a alma morre para poder viver mais uma vez. O corpo é a descrição do que ele é, e do que tem; enquanto a alma é o que não é, e é o que não tem.

A presença verifica-se pela comparência do corpo e alma. (Uma grande contradição pela promessa de se apresentar, por um lado como corpo, aquilo que sou e que tenho, e por outro lado como alma, aquilo que não sou e tudo aquilo que me falta; é designar-se como um ser cheio de vazios, ou até como um ser vazio de tudo aquilo que o faz estar completamente cheio, que de tão cheio vazio se torna).

Hoje, sentada na minha janela, olho para o meu corpo e ainda consigo ver as marcas que tu me fizeste designar como amor. O meu corpo deixa visíveis os cortes e dores que algum dia chamei amor.

A alma tenta recompor-se depois da sua primeira morte. Morreste-me.

A janela continua a mesma, a vista é também igual, parece que só eu é que mudei.

Tu foste-te e eu já não sei quanto tempo se passou desde que foste, perdi-lhe a conta. Mesmo passado tanto tempo tento, ainda hoje, colocar-te no passado, o único sítio que tu sempre me pediste para estar, por isso vou-te apagando de mim e faço-te a vontade. Eras tão meu, entre choros e risos, tinhas tempo de me mentir e de me fazer esperar-te, tinhas-me quando querias, e quando menos espero vais-te embora e quando voltas já não me trazes de volta. Hoje, já não te espero, e desculpa-me se aprendi contigo a errar.

"Amo-te, mas hoje não posso ir. Desculpa-me, acredita que te amo muito.", "Amo-te, mas prometi que ia jogar hoje. Desculpa-me, acredita que te amo muito.", " Amo-te, mas preciso mesmo de descansar. Desculpa-me, acredita que te amo muito." Amas-me tanto que não podes vir, que tens prioridades bastante diferentes, que sempre que não te apetece está cansado. Amas-me tanto que tens diferentes desculpas todos os dias, mas amas-me muito, dizes tu. Se me amasses tanto como dizes, vinhas, não tinhas desculpas ou contratempos. Tu não me amas, nem muito nem pouco. Tu nem sequer me amas.

Quero-te tanto que acabo por não te querer mais.

"Amo-te" é fácil de dizer, e mais fácil ainda é de demonstrar quando me usas apenas como corpo. Tocas-me, e eu odeio-te por tudo isso. A verdade é que me tocas, apenas no corpo, nunca chegas a atingir-me a alma.

Amas-me, e se me amas é apenas pela metade daquilo que eu sou. E se me amas pela metade daquilo que eu sou, a verdade é que nem sequer me amas. Porque ninguém ama pela metade; a metade de amar é gostar, é isso não é a mesma coisa: quem ama gosta, mas quem gosta não ama.

Sou escrava dos teus jogos e noitadas, mas não sou dona da tua insónia ou saudade: e de que me serve o teu corpo sem a tua alma?

Gosto da forma como me lês, mesmo não me interpretando da forma correta. Se for uma conta, sabes sempre o meu resultado, mas não me sabes resolver. E de que me serve alguém que está meio presente? Alguém que quando vem só deseja o meu corpo? Se não me amas no meu íntimo, se não me amas como alma, então não mereces o meu corpo.

Se só me amas no quarto de hotel, então tu não me amas; se só me amas quando os nossos corpos se encaixam, então tu não me amas; se só me amas quando queres, então tu não me amas.

Se sou x, és y: conta sem solução. Por isso, não contes mais comigo.

(-Ainda acreditas que pode haver vida depois do amor?

-Não sei, achas que as cinzas voltam a ser fogo ardente?

-Sim...-suspiro sem fim, talvez do cansaço de acreditar na vida depois da morte, dada pelo amor.)

Sentada na minha janela tento encontrar a caixa de primeiros socorros para evitar a morte da minha alma. (Mas como evitar algo que já aconteceu?)

Sentada na minha janela, vejo-nos em cada casal que passa por aqui, ou em cada promessa e jura de amor eterno.

(-E o que é a eternidade?

-É aquilo que permanece para além do corpo.

-A eternidade é alma?

-Não a eternidade é o desejo inacabável da alma.)

Chegas, e sentas-te naquela cadeira ao lado da cama. Descalças-te, e eu continuo à janela. Levantas-te, num só impulso. O meu copo caí. Gritas (desculpa não consigo perceber o que me dizes). Puxas-me. (Tenho medo, o que estás a fazer?)

-Amo-te, mas tu não me amas.

-Isso não é verdade... Eu... Amo-te

-Tu: ris-te ao dizeres isto. (Sinto-me tão inútil)

-Eu esperei por ti, eu amo-te.

-Se me amasses fazias o que eu queria.

-Eu dei-te tudo. O que queres mais?

Mais um grito. Mais um copo partido, mais um choro.

Ouço a porta mas não me levanto.

Hoje, sentada na minha janela, agarro no meu copo de vinho e leio a carta que me deixas-te: "Amo-te. Fui parvo"- últimas palavras registadas na carta. Olho para o meu pulso, ainda existe sangue e os vidros ainda permanecem no chão do quarto e ... A minha alma, onde está ela? Morreste-me.

O tempo passa e ainda há marcas da tua presença no quarto, ainda há sangue, vidros e a saudades continua a uma distância ínfima do meu ser.

Disseste que voltavas... Lembras-te?

Se voltares, traz-me de volta a mim também.

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publicado por Menina Flor às 22:21





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