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O que guardas no teu silêncio?

Sábado, 25.03.17

 

No silêncio cabe uma imensidão de palavras e de gritos, de choros e de sufocos, de vazio e de amores guardados que o barulho não ouve.

No silêncio cabe a saudade que sinto quando já não te sinto mais.

No silêncio cabe o que pertence de quem já me pertenceu.

No silêncio cabe o orgulho desfeito que me preenche o peito de um vazio indeterminável de ti.

No silêncio permanece aquilo que de nós não permaneceu.

No silêncio ouço as vozes que me atormentam mesmo quando há barulho.

No silêncio desejo o teu corpo enquanto me permito substituir o insubstituível- tu. E sem que qualquer corpo se assemelhe ao teu, procuro-te em todos eles. (Procuro-te não por conveniência, ou medo de ficar sozinha; procuro-te porque não aguento o sufoco de um querer impossível, de um desejo incontrolável de ti).

No silêncio, eu encontro-te todos os dias; num olhar mais profundo, num perfume mais intenso; numa conversa mais amarga, num desejo mais íntimo, num sorriso espontâneo, num segredo oculto, num papel amarrotado com as palavras que eu não fui capaz de te dizer, numa mistura dos meus sentimentos com todas as bebidas que bebo para te tirar do pensamento- engenhos e tentativas falhadas de fugir de ti.

No silêncio são consumidos os últimos vestígios de quem disparou a primeira bala, de quem apontou a primeira arma, e depois disso? - o nada, pólvora e o vazio, a arma caí e a culpa não morre.

No silêncio escondo-te em mim; já não há forma possível de te ter, a não ser no vazio do silêncio, onde ninguém me vê, onde ninguém me ouve, onde ninguém te leva para longe de mim.

No silêncio imagino quando te reencontrar, quando estiver de novo nos teus braços, que hoje lhe pertencem; imagino quando os teus lábios acariciarem de novo os meus, que hoje pertencem a alguém que não sou eu; espero por o momento em que voltas (talvez quando estivermos mais preparados para amar), e até lá pergunto-me quem sou eu? Um projeto de alguém que já foi teu ou alguém que te procura e te escreve para não te deixar morrer em mim?

No silêncio penso naquilo que não devia pensar. Mais de um terço dos meus pensamentos dirigem-se a ti (talvez com o propósito te fazer voltar, de alguma maneira, ou então com o propósito de perceber os porquês do universo).

Nada mais se passa quando passo por ti, e tu desapareces... E quando apareces de novo damos voltas na tentativa falhada de não falhar novamente.

Um dia, talvez, terei coragem para te dizer quantas vezes, no silêncio da noite, sussurrei o teu nome (talvez para ter a certeza que não te esquecia com facilidade, ou talvez, quem sabe, para sentir o conforto que me dá lembrar-te, apesar da amargura e de tudo aquilo que me faz não te querer mais)...

Um dia, talvez, falar-te-ei sobre o barulho do meu silêncio, sobre as palavras consumidas pelo vento, que te-me levou sem piedade alguma. Destino cruel!

Quando te vir, mesmo em sonhos, irei contar-te o sabor amargo da saudade, o quanto custou ver-te partir e não te poder puxar de novo para mim, o quando me custa saber que já não te sei de cor, que já não conheço os contornos do teu corpo que um dia tão bem conheci.

Lembrar-me de ti é sentir a felicidade até ao seu ponto mais comum de dor; sinto-te parvamente como se ainda fosses parte de mim, mas hoje tu és parte daquilo que me parte, talvez, quando já tenhas partido completamente de mim, eu já não me sinta partida. (E quando parte de ti parte, e te deixa partida?)

Um dia talvez te encontre por aí, numa rua, numa altura improvável, sem coincidências ou manhas que te levem de mim. Vou então gritar que a sorte é minha companheira, que já fizemos as pazes e agora nem o destino, nem qualquer tipo de feitiço nos fará fugir de nós mesmos, nem por um segundo.

Não te prometo sentimentos com falsos amores e engenhos de vinganças de amores passados, não te prometo promessas de amor eterno porque a eternidade também é um número.

Não te prometo sermos felizes como no passado, até ao fim, limitando-nos a dias contados; prometo-te sim, criar um novo presente e um futuro mais risonhos (aquele que a vida nos roubou, e que provavelmente guardou).

O barulho abafa as palavras que digo, apaga as palavras que escrevo, os olhares que desvio e esquece todos os segredos que eu ainda não te contei.

Quando te vir, vou contar-te as vezes em que o meu silêncio falou por mim, e as vezes em que o meu barulho fez o meu orgulho falar mais alto do que tudo aquilo que me permitia sentir por ti, e que nunca te consegui dizer.

Um dia, o silêncio vai relativizar os amantes e a minha escrita, que sem qualquer nexo me vai fazer duvidar das certezas que até hoje me convenci.

A minha essência irá desfazer-se como pó, e mais tarde queimar-me-ão se ao fogo do amor já não pertencer; e se não for fogo transformarei as minhas lágrimas em chuva.

Um dia, quando já não souberes o meu nome, e quando o meu toque já não te fizer tremer, posso afirmar que sei a data da minha morte: é desde esse dia até ao fim da minha vida; uma morte lenta e consumista. 

E qual será o teu desejo: viveres em mim ou morreres-me sem amor algum? Talvez o teu silêncio responda às minhas perguntas...

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publicado por Menina Flor às 09:22





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