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Uma insónia cheia do teu vazio

Sábado, 18.03.17

(A insónia está presente em cada canto do meu quarto, e tu permaneces presente em mim.Silêncio, e depois uma lágrima. Memórias são o que me resta de um pouco de ti)

Faço questão de não te incomodar mais e de não voltar a dizer um "olá" audível simplesmente para ti, a partir de agora todos irão ser inaudíveis tanto para os teus amigos como para ti.

Sabes, nunca gostei que as coisas acontecessem de uma forma qualquer, sem nenhuma razão. Gosto de coisas lineares e não de destinos mal definidos. Mas naquela noite admiti que se cruzou comigo um destino mal definido e eu aceitei-o de braços abertos. Eu quis vivê-lo. Mas porquê? Porque raio eu iria querer viver assim? Se nunca o quis. Porquê? Porquê agora? Não quero quere-lo mas sem querer eu quero-o. Não posso, hesito, não devo, convenço-me. Não quero ser uma sombra da noite. Não quero. Nunca quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e hoje o dever não manda. Não quero ser a pessoa que agarra o copo de vinho e o bebe para que o encha novamente. Nunca quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e hoje o dever não manda. Não quero afogar as minhas lágrimas em choros profundos. Nunca quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e o hoje o dever não manda.

Chego a casa. Já é tarde mas não tenho nem sono nem qualquer vontade de adormecer. Fico acordada até ser vencida por o cansaço. Acordo com o despertador às 8h. Dormi 2h. Mando-te mensagem vais ter banda às 9h, aposto que não vais mas vou tentar. Nada. Telemóvel desligado. Eu tentei de tudo. Agora já não há nada que me mantenha acordada. Tu não estás on, provavelmente estarás a tentar entender a noite de ontem, mas mais provável que isso é estares a dormir.

Acordo. Sento-me estranha. Um sentimento corrói-me o peito. Culpa. É o nome deste sentimento. Veio de fininho. Porra. Já deveria contar com esta presença. Esqueci-me. Estava distraída, ou talvez sempre o tenha estado e se estive, digo-te que desta vez estive mais distraída que nunca.

Foi um erro. Chama-lhe o que queiras. Erro é o seu nome. Personifica-o, mas fica a saber que depois dele há consequências: culpa e ressaca de pensamentos.

Falo contigo. Já é tarde demais para arrependimentos. Juras-me que tudo vai ficar bem. Desculpa: não consigo acreditar nas tuas palavras. Pedes-me para não falar disto a ninguém. Desculpa: mas não aguento, preciso de dizer a verdade a alguém, preciso de parar de lhe mentir (já que não me paro de mentir a mim). Tenta esquecer a noite de ontem dizes-me numa mensagem quase ingênua. Desculpa: mas não consigo. Sei que queres esquecer o assunto e eu juro que também quero mas não sei como me privar de sentir a culpa. Sou ingênua e tento acreditar em tudo o que tu dizes e cumprir todas as promessas. Desculpa: não consigo. Sou fraca, ou talvez sempre o tenha sido e se o era, desta vez sou mais fraca ainda.

Toca o telemóvel. Atendo. Falam-me de ti. E quem sou eu para dizer alguma coisa? Calo-me. Nem uma palavra.

Pensamentos sem tino, decisões por tomar, queria ter a certeza do caminho certo mas é tudo tão incerto que nada mais se poderá tornar errado.

Decido ligar-lhe para combinar as coisas (preciso de dizer a verdade a alguém, preciso de parar de lhe mentir, preciso de admitir o meu erro, já que não me paro de mentir a mim). Falo com ele. Parece bem-disposto. Não queria nada estragar-lhe o dia mas ele notou que eu estava estranha. Talvez ainda dê para disfarçar e desmarcar tudo à última da hora, arranjar uma desculpa qualquer. (Ele já o deve ter feito, porque não eu fazê-lo...não fará mal... É melhor não. Tento pensar racionalmente pelo menos uma vez. Seja o que for. Vou acabar com isto. Posso perde-lo mas este sentimento irá provavelmente desaparecer). Penso em tudo e dou um sorriso, ele não é perfeito mas tem sido espetacular em tudo, depois caio na realidade: não o posso magoar. Mas já é tarde para arrependimentos, está feito. Não há volta a dar.

Conto-te tudo o que se passou até agora e deixo para lá a vida real, ela que se dane, gosto do inventado mas eu não gostava porque gosto agora? Não quero gostar do inventado. Nunca quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e o hoje o dever não manda.

Vou ter com ele, como combinado. O meu coração acelera (o normal quando se fala de estar com ele). Evito um cumprimento formal de namorados, quero passar ao que importa. Eu errei contigo, comigo e com ele. E se eu não me consigo desculpar está na hora de lhe contar. Eu errei. É fácil? Ou melhor parece... Alivia? Se calhar não?

Ligo-te. O telemóvel chama. Atendes conto-te tudo (não pareces nada interessado na conversa, ou se calhar são ainda os efeitos da bebida, mas não quero saber, eu errei e estou aqui para o admitir) depois faço o mesmo com ele.

Contei-lhe tudo e a reação dele foi apenas "eu desculpo-te" e a seguir um beijinho na face e um abraço. Lembro-me da nossa conversa na noite passada, ele tinha-me chamado "igual às outras" e tu disseste que eu não o era, agora eu admito eu sempre o fui. Ele tinha razão. Talvez ele me conheça melhor que eu me conheço... As memórias enchem-me a cabeça e não me deixam sentir-me confortável ao pé dele. Já não me sinto segura. Se calhar nunca estive, ma desta vez tenho a certeza que não estou. O meu mundo desabou no abraço dele porque senti a noite passada presente em mim, deu-me vontade de chorar, fugir e adormecer. Quero fugir da realidade. Ela não me pertence, nem me permite ser livre. Sou sua prisioneira. Só quero que ele me largue. Ainda não devem ter passado três segundos e eu já desejo que o abraço acabe. Sinto-me sufocada, se calhar sempre o estive, mas juro que desta vez estou mais do que nunca. Acabou. Finalmente. Não quero que ele pense que estou mal, mas eu estou. Só tenho vontade de fugir de mim. Como se houvesse um fantasma que me atormenta, e esse fantasma sou eu. Vou para casa. Já é tarde para me arrepender. Pensava que a culpa iria sair de mim mas nada modificou, sinto-me ainda mais culpada.

Caminho devagar. Não tenho pressa de chegar. Não tenho pressa da insónia de hoje, quero chegar quando estiver cansada. As lágrimas escorrem no meu rosto, deixo que elas escorram. É de noite, ninguém vê e já não há motivos para não as deixar escorrer. Dou voltas por as ruas. A noite é a melhor companhia para corações despedaçados. Sento-me. Não sei o caminho para casa. Sinto-me perdida, se calhar sempre o estive, e se o estive digo-te desta vez estou mais perdida do que nunca. Não consigo pensar em todos os erros. São muitos. Demasiados. Sinto saudades dele mas não o quero agora, estou frágil, se calhar sempre o fui mas agora sinto-me mais frágil que nunca, quero-me a mim, quero a pessoa que eu pensava conhecer.

Eu nunca faria isto, eu sei. Mas porque fiz? Eu amo-o tanto. Será que é o suficiente? (penso para mim. Não obtenho resposta, talvez estivesse à espera de uma certeza mas tudo o que me resta são incertezas absolutas. Talvez só o queira. Já não me esforço para distinguir o amar do querer, porque talvez eu nem o queira nem o ame, talvez o deseje. Já não quero saber o que eu gostaria de saber. Quando as memórias invadem o meu espaço enchem-me de pensamentos que confundem sentimentos. Perdi-me de mim desde que me procurei em ti.

Pensamentos aleatórios enchem-me a cabeça. Ainda consigo sentir o cheiro a álcool e do teu perfume na minha roupa, quero tanto que eles desapareçam, não aguentaria mais esses aromas na minha roupa. A minha camisola preferida tem o cheiro meu erro, tem o teu cheiro. Tantos erros numa só noite.

Decido ir para casa. Já é tarde e já recuperei a memória. Basta secar as lágrimas e fingir que não se passou nada, ninguém vai desconfiar. Já me encontro perto de casa. Entro sem recuar. O plano correu bem. Entro no quarto e recomeço a chorar, permito-me sentir a dor. Já não me satisfaço por uma mensagem tua. Estou esgotada. Paro de chorar, prometo. Amanhã vai estar tudo melhor, prometo-me sem saber o que são promessas.

Acordo. Por instantes o ar está mais leve. Será que já é Primavera, outra vez? Não me digas que adormeci por tanto tempo. A felicidade chega rapidamente e quase consigo sorrir mas depois... A culpa voltou de fininho e resolveu ficar. Desculpa: prometi nunca mais tocar no assunto, mas já te disse que sou fraca.

Prometo-te é desta vez, sem exceção.

Afastamo-nos. Talvez porque tu achas-te melhor eu estar bem com ele, concordei. Isto era uma promessa? Desculpa: não a consigo cumprir. Bem, pelo que vejo tu não te importas o suficiente com isto, continuamos as nossas conversas. Continuamos com os pedidos de desculpa, com tentativas de ajuda, com temas aleatórios, enchemos os ecrãs com emojis, e continuamos. E um dia acaba.

Digo um "olá" sem resposta. Estou confusa, se calhar sempre o fui e se o era não sabia, mas sabes se o fui sempre, agora ainda estou mais. Não falas comigo. Entregue. A mensagem foi entregue. Mas ainda não foi lida. Vista. A mensagem foi vista. Foi lida. Mas e a resposta? Nada. Eu sabia que não deveria ter mandado mensagem. Mas porque é que eu ainda insisto? Não lhe vou dizer mais nada. Fico à espera. Tenho uma mensagem: será que é dele? Não. Milhões de mensagens e nenhuma te pertence. Porra, o que foi feito de ti? Desculpa: não te consigo evitar, nem me consigo convencer que já não existes. Desculpa.

O telemóvel toca. Uma mensagem. Não deve ser nada de importante. És tu. Uma mensagem tua? Nem acredito. Achas-te um erro? Desculpa: não tenho tempo para te dizer o que és ou não. Estava demasiado entretida em fingir que não te conhecia. E agora? Respondo? Sim. Vou responder. É melhor. Não quero que ele se ache um erro. Odeio ler as mensagens que me está a mandar. Óbvio que ele não é um erro. (Talvez seja mesmo, talvez seja até o meu maior erro, mas não o posso perder, não agora)).

Fui tentar ajuda-lo, mantém me longe, tem motivos. Desculpa: não deveria ter insistido contigo.

Mando-lhe mais uma mensagem não me responde. Lê apenas. Se calhar não teve tempo para responder, ou talvez não queria.

És uma tentativa de pensamento falhado: penso em ti até me destruir (tornaste-te opção, fazes parte da lista das prioridades; já não te designo como distração, porque é o teu nome que escrevo nos vidros embaciados). Um rabisco mal-amanhado num papel amarrotado: lixo ou reciclagem? (sempre tive dúvidas em relação às separações que devem ser feitas).

Não és quem eu preciso, és quem eu quero. Não és quem eu procuro, és quem eu desejo. Não és o objetivo que eu pretendo alcançar, és o vazio que eu escolho alternar e modificar. És a rua por a qual eu quero decidir quando passar, és o sonho que eu nunca tive. És alguém que decidiu entrar e não ocupar lugar, mas mesmo assim me marcou.

Desculpa: estava a pensar novamente em ti (será que pensas em mim?)

Estou para aqui a contar gotas de chuva à espera, provavelmente, que deixe de chover, não sei bem. Não tenho coragem para te dizer seja o que for, então, em vez disso (e talvez porque seja mais fácil), imagino-te. Imagino-nos (sei que é um erro mas talvez eu não o queira fazer. Nunca quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e hoje o dever não manda). Uma quantidade infinita de perguntas enchem-me a cabeça até ao ponto das minhas lágrimas surgirem e derramarem (já não existem motivos para as impedir de escorrerem, se elas existem elas que escorram). Será culpa? Ou será saudade? Deixo as dúvidas para depois. Guardo-as num espaço vazio e frio, para quem congelem. Tento sentir-me completa. Não consigo. Falta-me algo. Falta-me alguém. Sinto-me incompleta, se calhar sempre o estive, e se o estive digo-te desta vez estou mais incompleta do que nunca.

Desço as escadas devagar. Caminho sem saber para onde ir. Era suposto ter um destino? (E se eu te disser que eu o tinha, mas foi-me roubado: será que tu buscarias o meu destino junto com o teu?). Enquanto desço devagar desejo encontrar-te, nunca o tinha desejado. Nunca o quis, porque quereria agora? Mas não é o querer é o dever, e hoje o dever não manda.

Estou num abismo, prestes a desabar. Por favor, não sejas como os outros, não me empurres.

Escrevo o teu nome no meu caderno. Já passou tanto tempo e tu continuas tão presente em mim. Desculpa: mas gosto de te ter presente, é uma forma de te manter vivo em mim.

Observei cada gesto, desejei o toque da tua mão no meu ombro (onde estava o meu juízo? Perto de ti, perco-me de mim), quero poder encostar a minha cabeça no teu peito e descansar.

Desculpa: continuo a querer os teus mimos, apesar de tu não passares de uma miragem da minha cabeça, continuo a querer-te por perto, e talvez mais perto do que o desejável e aconselhável.

Lembro-me de cada frase, de cada palavra soletrada. Lembro-me do tremer dos teus lábios e do tremer do meu corpo (não era só frio, era medo. Medo da noite e do que ela nos podia levar fazer).

Desculpa: mas desejo que o frio não acabe, quero voltar a poder aquecer-me no calor do teu corpo (mas agora estás frio e distante, por isso mantenho-me afastada, já não te conheço, já não conheço as formas do teu corpo, já não conheço o teu sorriso, já não sei porque sorris, e eu já não sou o motivo. Como é que alguém tão frio, em tempos foi capaz de aquecer?).

Decorei cada detalhe teu, decorei o teu sorriso em mim, e só ele me faz sorrir. Decorei a noite, decorei-nos, e fiz por nunca me esquecer. Decorei-te em mim na incerteza do esquecimento inconsciente.

Desculpa: mas eu continuo a desejar os teus braços em volta do meu corpo.

Não consigo apagar a tua imagem da minha mente. És uma memória presente em todos os meus copos de bebida, visitas de bar ou cigarros apagados: és o sabor amargo do shot, és o papel que forra as paredes do bar que visito quando sinto a tua falta, és o cigarro consumido em cada noite de insónia.

Mais um dia sem ti. Mais uma noite de insónia. Mais uma música perdida. Mais uma dança falhada. Mais um brilho sumido. Mais um sorriso fingido. Mais um choro disfarçado. Mais um caminho por refazer na esperança de um novo rumo. Mais um "estou bem, obrigada", mais umas mil mentiras e um grande erro. Os meus vazios têm sido preenchidos por pensamentos aleatórios e sentimentos indefinidos.

Quero-te, mas não te tenho, não existe pior sensação. Já nem olhas para mim, e afinal pergunto-me: quem és tu? És alguém que eu já não conheço, já não me pertences, é um alguém que eu tão bem conheci.

Talvez faças parte de mim apesar de não me pertenceres: Tinhas-me a mim, era tua mas tu nunca foste meu, querias-me temporariamente e eu queria mais do que "um curativo temporário numa ferida permanente", embora soubesse que só perdia em tentar ganhar-te.

Desço as escadas rapidamente, vejo uma sombra, uma sombra de alguém. Penso em ti, o meu coração bombeia o sangue mais rapidamente, congelo por um momento, ouço uma voz, está cada vez mais perto…e nada mais se passa. Silêncio, e dois segundos depois lá estás tu na minha cabeça de novo.

Já é tarde, a noite já se fez sentir, e eu já estou pronta para a insónia, mas sinto-te tão presente que nem consigo fechar os olhos. Dói-me a cabeça: excesso de pensamentos. Dói-me o peito: excesso de sentimentos. Dói-me a alma: excesso da tua ausência. Dói-me o pensamento: excesso de ti.

Quero ligar-te mas não posso, ou melhor não devo, não iria resolver nada, pelo contrário só iria desconsertar o que estava reorganizado e esquecido (para ti). Decido fazer o mais correto e viver sem ti, tu já me mostraste que é possível viver sem mim, por isso, vivo com metade de mim e (na tentativa da) inexistência de vestígios da tua passagem por a minha vida, disseram-me que é possível viver assim.

Mais uma noite sem dormir, há quem lhe chame saudade, eu apenas chamo insónia, a razão de estar assim és tu, desculpa: sei que não deverias ser, mas és.

(- Quanto tempo ficaremos longe?

- O suficiente.

- E o que é "o suficiente"?

- É passares por ele e já não te recordares do seu cheiro. É passares por ele sem desejar qualquer tipo de toque. É passares por ele e ser-te indiferente. É passares por ele e ser-te um verdadeiro desconhecido: quem conheceste em tempos, mas que agora já não te é nada. É passares por ele, trocares olhares e já não existir sorrisos ou desejos. É passares por ele e não sentires raiva de situações passadas. É passares por ele e não sentires ciúmes de quem ele leva de mão dada. É passares por ele sem sentir vontade de escrever sobre ele ou sobre vocês. É passares por ele sem colocares os fones, desviares os cabelos, olhares para o telemóvel fingindo-te de distraída. É passares por ele sem correr com vontade de fugires. É passares por ele sem que chegues a casa com os olhos em lágrimas. É passares por ele e não termos esta conversa.)

Uma boa companhia, uma conversa de telhado, uma noite quente, um café e umas boas gargalhadas é tudo o que eu desejo para esta noite fria de inverno. Já não te desejo. Já não te quero, aliás quero-te sim, mas apenas no meu passado. Saíste do meu pensamento. Já não te conheço, nem quero conhecer-te. Já não me obrigo a pensar como parar de pensar em ti, já não te necessito.

Apaguei todas as mensagens, chamadas, bloqueie o nosso contacto e esqueci todas as memórias que, até agora insistiam não desaparecer.

Apaguei-te de mim.

Já não és a minha insónia, pelo visto nunca fui a tua, mas e o que isso importa agora?

Já não estás nas paredes do meu quarto, pelo visto nunca fui miragem no teu, mas e o que isso importa agora?

Já não te consumo em cada cigarro, pelo visto nunca gostaste de fumo, e eu nunca fui o fumo que te tirava a respiração, mas e o que isso importa agora?

Já vazei tantas garrafas, só porque partiste sem deixar rasto, e agora não é em ti que penso quando a noite fica fria ou quando não desejo a vida. Já não consumo álcool, ele faz-me lembrar de ti e eu só quero parar de beber em cada gota um pedaço do teu amor, porque eu já te desamei.

Já vazei tantos maços, que ficaram amassados e já fumei tantos cigarros que me tiraram os desabafos. Já não consumo cigarros, eles fazem-me lembrar de ti e eu só quero ter fôlego, voltar a respirar de novo.

E agora diz-me, depois de tantos erros, porque é que ainda procuras respostas certas em perguntas erradas?

Mais um dia que se passa e eu continuo a sentir-me incompleta, fraca e destruída.

Ao fundo do quarto vejo uma luz, se calhar são as marcas da noite passada. 

Levanto-me. Consigo distinguir três cheiros: álcool, fumo de cigarro e o teu perfume. Pergunto-me se estiveste novamente presente em mim, e será isso? Ou são apenas fantasmas do passado que me atormentam. 

Dúvidas e indecisões, estão a deixar-me louca. Uma saudade imensa. Lágrimas escorrem-me pela cara, faço-as escorrer, sem medos ou receios. 

Sou um fantasma de mim mesma. Um rascunho de uma personagem da minha história em que eu já nem sou a protagonista, demiti-me desse cargo para que tu exercesses as tuas funções; e onde é que eu errei? Afastei-me de mim para me poder aproximar de ti, e agora já nem sei quem eu sou.

Lá fora a estrada não para, o tempo voa e a velocidade aumenta. Luzes. Sinais. Vozes e alguns ruídos distantes. Tormentos e lamentos sem fim. 

Vou para a janela. Mantenho-me de pé, acendo o meu cigarro, deve ser o primeiro desde o início da noite mas não me parece que seja o último. (Sei que prometi não fumar, mas lembras-te: tu também prometeste não me deixar, e deixaste…) Ainda é cedo, 3h49, dormi durante 5h, e já me encontro à janela do quarto, como em tantas outras noites, com o meu cigarro na mão; as mesmas vistas, os mesmos cheiros e aromas, talvez até sejam os mesmos carros, e as mesmas conversas, mas de longe não posso assegurar nada. Sinto-me cada vez mais longe de mim. Memórias, laços, afetos, ilusões e desilusões transbordam-me. Estou cada vez mais frágil. Escorre mais uma lágrima, e esforço-me para que o meu mundo não desabe mais do que o suficiente, porque se isso acontecer sei que não vou ser capaz de ser forte sem a tua base. Quero-te mas não te posso ser.

Espreito mais uma vez lá para fora (só passaram 5 minutos e 18 segundos) e a rua continua com o movimento habitual, acabo o cigarro e deito o resto do fumo, que me enche o peito, para fora num só suspiro. 

Avanço até à luz da sala, provavelmente esqueci-me de a desligar ontem à noite. 

A sala tem um aspeto confuso: roupa espalhada pelo chão, uma chávena de café, papéis amarrotados, CD's, livros, cartas, fotografias e garrafas despejadas. O leitor continua com a mesma música de sempre. A televisão continua a reprodução do filme da tarde anterior. A lareira consome a pouca lenha que ainda tem. As paredes contam as mesmas histórias que em todos os outros dias. As garrafas continuam no mesmo sítio, talvez por preguiça de as deslocar ou talvez porque são elas que ainda me fazem levantar da cama.

Desculpa: eu tinha dito que já não fumava nem bebia, mas a tua ausência fez-me perceber que os vícios precisam de ser substituídos, nem que seja um pelos outros.

Quero tanto ligar-te, ouvir a tua voz, e dizer-te a falta que me fazes. Mas não o vou fazer, sei que não me queres ouvir mais, nem sei bem porquê (ou talvez saiba mas não queira acreditar, por isso limito-me a viver na ilusão, esperando pelo teu regresso, ou por algum sinal que mantenha a nossa chama acesa). 

Quero-te aqui, para te abraçar, sem medos ou receios. Sem ter que pensar naquilo que fomos (nem quero acreditar naquilo que hoje somos). 

Não quero viver nesta realidade. Não me quero arriscar a viver sem ti: eu tentei, juro, mas não consigo ver-te em todas as estradas que percorro ou encontrar-te em todas as pessoas com quem te tento esquecer.

Ouço os ruídos da noite. Já se passaram, duas, três e quatro horas, e eu estou aqui parada à espera de alguém que não volta, sim esse alguém és tu.

A cama continua desfeita, e o teu lado está sempre frio. Eu congelei o tempo nas minhas mãos, e aqui já nada continua. A rua já não tem movimento, não há ruídos, conversas ou velocidade; só já me resta o vazio que me preenche, só me resta o pouco de ti que ainda não me largou...

Sinto falta de ti, mas por hoje vou tentar optar por mim: talvez o destino assim o queira...

Preciso de ti, é verdade, sempre precisei. Eras o meu número da sorte em toda a matemática, e tanta sorte ou tanto azar que com eles nem contei, mas quem precisa de qualquer tipo de números se tem a realidade? E hoje a minha realidade é não te ter.

E é-me sempre tão difícil dizer-te adeus...

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publicado por Menina Flor às 22:03





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